Naturalismo – Influências

A força da literatura norte-americana não está somente nas suas qualidades: alguns velhos defeitos também contam — e ninguém sabe com certeza se são “defeitos”, de fato, ou mais qualidades disfarçadas. Um escritor bem sentado sobre esse tonel de dúvidas, com cigarro aceso, perigosamente, sobre os rios de tinta que já correram como petróleo cru nessa controvérsia, é o californiano John Steinbeck (1902-1968), Prêmio Nobel de 1962 e ganhador do Prêmio Pulitzer com o belo As Vinhas da Ira (1939), romance que foi relançado no Brasil (Editora Record, 574 págs.) numa série em comemoração ao centenário de nascimento desse versátil contador de histórias largas e curtas, homem “talhado no grosso” da vida meio vagabunda, cheia de subempregos, típica daqueles perdedores que são uma das faces da América.

Neto de pioneiros da fase mais entusiástica do “Go to West!”, Steinbeck tinha o sentido da sociedade se movendo de acordo com o princípio do interesse coletivo, força a puxar a gentalha (os joads) para os “pastos do inferno”. Isso lhe garantiu lugar entre os melhores autores do naturalismo, uma das vocações da arte made in USA e ao qual parecem responder as transparentes “realidades” do paisagismo e da observação imediata (Winslow Homer, Edward Hopper, Childe Hassam, Norman Rockwell e outros), na pintura americana que Whistler inaugura com magníficos retratos chamados de “estudo do branco”, “estudo cinzento”, etc. Steinbeck também começou praticando o realismo de “superfície cinzenta”, naquela camisa-de-força literária do país saído da depressão econômica dos anos 30 para o New Deal. Os ensinamentos da crise — e toda a procissão americana das novelas proletárias do período — tornaram a voz indignada de Steinbeck importante até no sentido prático da reforma de leis, como no caso das denúncias de As Vinhas da Ira, filmado com o vigor correspondente de John Ford.

A obra do autor de A Leste do Éden (1952) entronca com a tradição mais pura do naturalismo que gerou — e ainda gera — controvérsia nos meios acadêmicos e nas boas revistas literárias acesas em debates que têm, não raro, precisamente essa obra como um dos motivos de discórdia entre críticos e scholars. Alfred Kazin, por exemplo, forçou o arco da acolhida e da repulsa até o ponto de gerar aquele conceito do Steinbeck “primitivo” — na verdade já implícito nas primeiras opiniões de Edmund Wilson sobre o jovem narrador influenciado por Frank Norris e outros trabalhadores menores da construção do grande romance americano típico. Anos mais tarde, quando o Prêmio Nobel de Literatura chegou às mãos calejadas do californiano, foi um “deus-nos-acuda” em certos meios para os quais só existiria a possibilidade de se premiar de Faulkner para cima, em termos de literatura da casa. O prêmio punha o dedo na ferida de conceitos e preconceitos criados em torno dessa literatura que oferece, primeiro, a sua descontinuidade fascinante (conceito de Kazin) e, segundo, um pendular movimento, constante, entre rudeza e refinamento. Eram estes artisticamente válidos, com o mesmo peso na balança?

Críticos e Ph.Ds. partiram para tentar responder a questões desse tipo e a discussão serviu não só para se debater a obra de Steinbeck como também para rever os pontos fracos e fortes, as qualidades e as deficiências do romance ianque — bem diferente do europeu — no andamento temporal, na “presença” do espaço e nos meios expressivos, de todo o tipo, incorporados aos recursos de escritores tão diversos quanto Thomas Wolfe e John dos Passos (para citar dois antípodas no mesmo quarto). Seus antecessores também haviam oscilado entre o realismo e a subjetividade confidencial. Mas como encaixar perfeitamente aí, para os modelos escolares, a literatura ao mesmo tempo tosca e sofisticada de Herman Melville e de Stephen Crane? O primeiro é um dos artistas supremos da prosa em qualquer língua, peregrino “primitivo” das águas do oceano — “grande o bastante para nele se tentar dizer a verdade” —, pregador num deserto de homens sedentos de visões e manchados do sangue que jorra em O Emblema Rubro da Coragem (a melhor obra de Crane).

Fica difícil, assim, pegar de uma etiqueta dourada e colar na lapela dos merecedores de prêmios e altas distinções da crítica apenas porque escreveram naquele tal modelo que Wilson foi buscar no espelho do seu armário de elucubrações refratadas do gosto do “velho continente” que contaminou Henry James (mas não o desnaturou) e fez Sinclair Lewis se desviar, no fim da vida, de hotéis baratos e cidades pequenas demais para um Prêmio Nobel. Após o interregno — meio “europeu” também — dos romances da “lost generation” (Fitzgerald, Hemingway, Stein) de permeio entre as duas guerras, o jogo de ambivalências se faz pela retomada do “regionalismo” — que nunca é apenas regionalismo, como o entendemos no Brasil, e que, na América, pode abrigar tanto Ellen Glasgow quanto William Faulkner, mas que tem seu representante mais largo em John Steinbeck, queira ou não.

Primeiro, não esqueçamos que o mundo de Steinbeck não se reduz, jamais, apenas ao realismo social dos anos negros, nos quais a sua formação pessoal se faz bordejando crises (Depressão, anos pré-guerra). Segundo, aquele realismo de “superfície cinzenta” usado por ele nunca chegou a confiná-lo longe da literatura de sensibilidade confidencial, onde se pode construir “um mundo dentro de um mundo” — por mais tenuous que essa “segunda voz” tenha se tornado nas suas últimas obras, distantes das terras bravas como dos pastos infernais das longas histórias ecoadas dos modelos “bíblicos” (de pregador e psicopata) que existiam nele.

Durante toda a sua vida de escritor, John Steinbeck escutou dizer que sua obra pouco tinha de “criativa” — até porque não foram muitos os críticos a perceberem o desinteresse steinbeckiano (nesse sentido) no ofício moderno. E a indiferença ao experimentalismo que afastaria a “compreensão humana imediata”, para o Steinbeck dos vales californianos de Salinas, o melhor e o mais verdadeiro, longe daquela “versatilidade” que ele próprio alardeava, como defesa. O mergulho desse escritor no seu cenário — planeta oposto ao de Faulkner — o aproximou de uma simpatia animal para com as forças da natureza, mas ninguém pode esquecer que o John vagabundo da juventude foi um amador de estudos de Biologia, e não por acaso: os instintos animais e o “santuário” do Oeste lhe parecem ao menos seguros no meio da loucura construída — conscientemente — pelos homens: “Meus sentidos não estão acima da crítica, mas são tudo que tenho. Minha ambição é ver o corpo inteiro – da minha janela de sal e tempestade, joio e trigo derramado pelo caminho. Eu não quero pôr antolhos para separar o que há de ‘bom’ e de ‘mau’ na estrada, limitando ainda mais a curta visão que tenho das coisas. Como posso olhar e ter certeza da ‘bondade’ de uma coisa perdida, sem perder a licença de examiná-la de perto (porque ela pode conter também o ‘mau’, no espelho das coisas bem vistas)? Eu quero olhar a coisa inteira”.

Como escritor, ele não agiu de modo muito diferente de um biólogo diante do mapa de algum DNA incompleto: buscou estágios “evolucionários” da memória inconsciente, expressados em mitos culturais como o “Jardim do Éden”, a “Terra da Promissão” e outros signos de culpa e redenção subjacentes ao tema da busca e da mudança (medularmente americano, na saga de conquista de uma região ou da simples felicidade doméstica). Seus homens estão em luta consigo mesmos e contra as mulheres — e vice-versa — e o conflito fascismo versus marxismo tem alguma palavra de confusão a entornar o caldo das coisas divididas (e não-divididas) no lugar da “coisa inteira”. Nessa tortilla de fronteira, nesse chili preparado perto das cercas de espírito farpado e fogueira dos ideais nacionais após a Segunda Grande Guerra, temos até o Steinbeck que chega aos movimentos intelectuais dos anos 60 e à perspectiva “holística” já presente nos personagens do derradeiro O Inverno da Nossa Desesperança: seres humanos conectados cultural e biologicamente, seja como for, ao “universo misterioso que perece conosco”. Essa foi a crença do Steinbeck “místico” à sua maneira, cigarro aceso e olhar ansioso por ver uma América inteiriça no lugar do fragmento dos fragmentos com os quais estão trabalhando as novas gerações de herdeiros do “naturalismo” velho.

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Colaboradora: Nazaré Silva

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